edaços de aço roubado. A bem da verdade, ele próprio não
sabia o que achar. Seria seu comandante ou seu prisioneiro?
Durante a maior parte do tempo, parecia ser um pouco de
ambos. - Pode ser melhor que eu desça sozinho - sugeriu.
- Melhor para Tyrion, filho de Tywin - disse Ulf, que falava
pelos Irmãos da Lua. Shagga apertou as sobrancelhas, o que
era uma visão assustadora.
- Shagga, filho de Dolf, não gosta disto. Shagga irá com o
homem-rapaz, e se o homem-rapaz mente, Shagga lhe cortará
o membro viril...
- ... e o dará de comer às cabras, já sei - disse Tyrion num tom
fatigado. - Sagga, eu voltarei, dou a minha palavra como
Lannister.
- E por que deveríamos confiar na sua palavra? - Chella era
uma mulher pequena e dura, reta como um rapaz, e não era
nada tola. - Os senhores das terras baixas já mentiram antes
aos clãs.
- Você me magoa, Chella - disse Tyrion. - E eu que pensava
que nos tínhamos tornado tão bons amigos. Mas seja como
quiser. Virá comigo, e também Shagga e Cronn pelos Corvos
de Pedra, Ulf pelos Irmãos da Lua e Timett, filho de Timett,
pelos Homens Queimados - os homens dos clãs trocaram
olhares cautelosos à medida que os ia nomeando. - Os outros
ficarão aqui até que os mande chamar. Tentem não se matar
ou mutilar uns aos outros enquanto eu estiver fora.
Esporeou o cavalo e afastou-se a trote, não lhes deixando
escolha que não fosse segui-lo ou ficar para trás. Uma ou
outra coisa para ele estava bem, bastava que não se
sentassem para conversar durante um dia e uma noite. Era
este o problema dos clãs; tinham a ideia absurda de que a voz
de todos os homens devia ser ouvida em conselho, e por isso
discutiam sem fim sobre tudo. Até as mulheres eram
autorizadas a falar. Pouco admirava que se tivessem passado
centenas de anos desde a última vez que ameaçaram o Vale
com algo mais que uma incursão ocasional. Tyrion pretendia
mudar isso.
Bronn o acompanhou. Atrás deles, depois de uma rápida
sessão de resmungos, os cinco homens dos clãs seguiram-nos
em seus pequenos cavalos, umas coisas magricelas que
pareciam pôneis e subiam vertentes pedregosas como cabras.
Os Corvos de Pedra iam juntos, e Chella e Ulf também se
mantinham perto um do outro, uma vez que os Irmãos da
Lua e os Orelhas Negras tinham laços fortes entre si. Timett,
filho de Timett, ia só. Todos os clãs das Montanhas da Lua
temiam os Homens Queimados, que flagelavam a carne com
fogo para provar sua coragem e (segundo os outros) assavam
bebês em seus banquetes. E mesmo os outros Homens
Queimados temiam Timett, que arrancara o próprio olho
esquerdo com uma faca incandescente quando chegou à idade
adulta. Tyrion deduzira que era mais habitual que um rapaz
arrancasse a fogo um mamilo, um dedo ou (se fosse realmente
bravo, ou realmente louco) uma orelha. Os outros Homens
Queimados ficaram tão atemorizados pela sua escolha de um
olho que imediatamente o nomearam Mão Vermelha, o que
parecia ser algum tipo de chefe de guerra.
- Pergunto a mim mesmo o que o rei deles queimou - dissera
Tyrion a Bronn quando ouviu a história. Sorrindo, o
mercenário agarrara a virilha... mas até Bronn mantinha um
respeitoso cuidado com a língua perto de Timett. Se um
homem era suficientemente louco para destruir o próprio
olho, era pouco provável que se mostrasse gentil para com os
inimigos.
Vigias distantes espreitavam de torres de pedra solta quando
o grupo desceu pelo sopé dos montes, e uma vez Tyrion viu
um corvo levantando voo. Onde a estrada de altitude se
retorcia entre dois afloramentos rochosos, chegaram ao
primeiro ponto fortificado. Um muro baixo de terra com um
metro e vinte de altura fechava a estrada, e uma dúzia de
soldados com atiradeiras guarnecia os pontos altos. Tyrion fez
seus homens parar fora do alcance e se dirigiu sozinho para a
muralha.
- Quem comanda aqui? - gritou.
O capitão foi rápido para surgir, e ainda mais rápido para
providenciar uma escolta a Tyrion quando reconheceu o filho
do seu senhor. Passaram a trote por campos enegrecidos e
fortificações queimadas, até as terras do rio e o Ramo Verde
do Tridente. Tyrion não viu cadáveres, mas o ar estava cheio
de corvos e gralhas-pretas; tinha havido luta ali, e
recentemente.
A meia légua da encruzilhada, tinha sido erigida uma
barricada de estacas aguçadas, guarnecida por lanceiros e
arqueiros. Atrás dessa linha, o acampamento estendia-se até
perder de vista. Finos pilares de fumaça erguiam-se de
centenas de fogueiras para cozinhar; homens vestidos de cota
de malha sentavam-se à sombra de árvores e amolavam suas
lâminas; estandartes familiares ondulavam em mastros
enfiados no terreno lamacento,
Um grupo de cavaleiros avançou ao seu encontro quando se
aproximaram das estacas. O cavaleiro que os liderava usava
uma armadura prateada com ametistas encravadas e um
manto listrado de púrpura e prata. Seu escudo mostrava o
símbolo do unicórnio, e um corno em espiral com sessenta
centímetros de comprimento projetava-se da testa de seu
elmo em forma de cabeça de cavalo. Tyrion puxou as rédeas
para saudá-